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O que a sua infância guarda: feridas emocionais e a Sombra
A sua infância não guarda apenas as boas memórias de quando você brincou na praia com seus pais ou as apresentações nas datas festivas da escola, embora, para muitas crianças, subir naquele palco fosse motivo de puro pânico. A sua infância guarda os momentos leves, mas também carrega as suas primeiras feridas emocionais. É nela que muitas crenças limitantes e traumas são construídos silenciosamente.
A infância não é uma simples linha cronológica onde guardamos carinhosamente as fotos dos aniversários temáticos. Ela é a estrutura psíquica fundamental que, querendo ou não, vai influenciar cada uma das suas decisões no futuro.
Não se trata de dizer que a infância é um período puramente doloroso, mas é nela que começamos a edificar os incômodos que vivenciaremos anos mais tarde. Parece estranho falar sobre o futuro quando nos referimos a uma fase em que nem tínhamos dimensão do amanhã. O futuro a Deus pertence, é verdade, mas cabe a nós construí-lo. A questão é: com qual discernimento podemos construir o amanhã quando ainda estamos caminhando pela casa usando fraldas?

A importância da autoridade parental
Os pais são a primeira referência de autoridade na vida de uma criança. Autoridade no amor, na lei, nas regras, no direcionamento, no cuidado, na proteção e no acolhimento.
Agora, pense em uma criança que não teve acesso a esse amparo. Quantas lacunas vazias ela acumula pela ausência dessa estrutura?
Quando alguém vai construir uma casa, o primeiro passo é a perfuração do solo, o famoso “bater estaca”. A máquina perfura o chão até alcançar a rocha firme. Ao encontrar essa base, a perfuradora sai e deixa um buraco profundo, que imediatamente é preenchido com concreto para sustentar a construção por toda a vida.
Imagine se os construtores apenas fizessem as perfurações, não enchessem os buracos com concreto e jogassem apenas uma camada fina de piso por cima. Qual a chance de essa casa parar em pé? E qual é a chance de um adulto dar passos firmes na vida se, na sua infância, várias lacunas profundas ficaram vazias, sem afeto, sem direção e sem acolhimento?
Existe um poder imenso quando a mãe abraça e o pai direciona. Da mesma forma, esse poder se multiplica quando o pai acolhe e a mãe apoia.
A criança não entende racionalmente o que está lhe faltando, mas ela guarda o vazio. Ela cresce sentindo um incômodo sem nome. Ao chegar à adolescência, tenta desesperadamente preencher esse buraco com qualquer coisa que encontre pelo caminho. É nessa fase que:
- Qualquer relacionamento serve, apenas para não sentir o desamparo;
- A bebida alcoólica passa a ser usada como marca de posição social;
- Surge a aproximação com as drogas;
- As noitadas acolhem com um silêncio que, no fundo, é pura solidão;
- Os estudos e os projetos de futuro se tornam superficiais.
Aquela criança que não entendeu o vazio e precisou guardá-lo no inconsciente, agora, como adolescente, sente na pele o desconforto do abandono, da rejeição, da injustiça e da inferioridade. Quando chega à vida adulta, tudo isso transborda em suas ações (ou na falta delas), nos seus relacionamentos travados e na constante insegurança diante da vida. (Clique aqui e leia o texto: Como a rejeição na infância dita a vida adulta)
A infância é o solo que precisa ser firme para que, mais tarde, o adulto não construa os seus próprios terremotos.

O ouro que escondemos na Sombra
Mas a infância não guarda apenas o vazio. Ela também guarda tudo aquilo que existia como ouro e precisou ser escondido.
Pense em uma criança de 8 anos que descobre a sua habilidade com desenhos e pinturas. Uma folha em branco era o palco da sua criatividade. Ali, ela combinava cores e criava personagens fortes. Ela treinou essa habilidade por dois anos. Aos 10 anos, porém, sua mãe informou que a família enfrentava uma crise financeira grave e que ela precisaria ajudar na pequena lanchonete da família.
A única funcionária foi demitida e a filha assumiu as tarefas: organizava as latinhas na geladeira, passava vassoura no salão e limpava as mesas. Para a criança, estar com a mãe ainda era uma festa. Nos pequenos intervalos, ela pegava seu caderno de artes para desenhar, mas logo era interrompida por uma nova exigência.
As interrupções viraram rotina, até que um dia a mãe disse: “Filha, você não pode perder tempo com esses desenhos. Preciso de você me ajudando“. Os dias passaram, e o contato com o caderno foi diminuindo lentamente, abrindo um vazio silencioso.
Mesmo sem dar lucro, os pais mantiveram a lanchonete aberta. Em um dia de chuva e pouco movimento, a menina voltou a abrir o caderno. Quando a mãe viu a cena, estressada com as dívidas, reagiu com dureza: “Garota! Já mandei você parar com esses desenhos! Aqui é lugar de trabalho. Você não pode perder tempo com coisas inúteis. Vai guardar isso agora e não quero mais ver esse caderno aqui!“.
A menina obedeceu. Guardou os lápis e o caderno para nunca mais tocar neles.
Ao guardar o caderno, ela não guardou apenas o papel. Ela guardou a sua criatividade, a sua imaginação, a sua liberdade, a sua alegria e o seu sorriso. A mente infantil sintetizou uma ordem silenciosa: “Eu não posso criar. Expressar quem eu sou com a minha arte não serve para nada“.
Carl Jung explicava que a Sombra, localizada no nosso inconsciente pessoal, é formada por todos os conteúdos reprimidos, negados ou negligenciados da nossa história que o ego rejeitou. Mas a Sombra não guarda apenas coisas “ruins”, ela guarda, principalmente, o nosso potencial sufocado.
Quando essa criança se torna adulta, ela não entende por que tem tanta dificuldade em se expressar, em se sentir livre ou em criar coisas novas. Ela chega a se sentir culpada quando se permite descansar ou viver uma vida mais leve e colorida, porque lá no fundo ainda ouve o eco de que a sua essência é “inútil”.
Ao olhar para a sua infância hoje, o que você deixou de viver?
O que você escondeu na Sombra e agora tem medo de resgatar?
Lá na sua Sombra estão guardadas as emoções e os talentos que precisam ser ressignificados para que a sua vida finalmente destrave.
Você pode reescrever sua história.
Se algo neste texto tocou você, talvez seja o momento de parar de apenas ler sobre mudança e começar a vivê-la. A terapia é o espaço onde você pode olhar pra sua história com honestidade, sem julgamento, e começar a escrever novos capítulos.
Atendemos online, de qualquer lugar do Brasil.


