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O trauma e o interior
Quem viaja de uma cidade com mais de 300 mil habitantes em direção a uma pequena cidade com pouco mais de 4 mil, como na rota que me levou a Córrego do Bom Jesus (clique a conheça mais sobre a cidade), no sul de Minas Gerais, no último fim de semana, costuma carregar a ingênua ilusão de que a calmaria das estradas de terra e o silêncio das montanhas funcionam como um escudo antitraumas. É quase um desejo inconsciente de encontrar um refúgio livre de feridas emocionais, onde a única crença possível seja a de ser feliz até o último dia de vida.
Não vou negar: a paisagem pode, sim, funcionar como um anestésico para a alma.
Como costumam dizer por aí: “não é terapia, mas é terapêutico“.
A ilusão geográfica: por que tentamos fugir das feridas emocionais?
Existe um mito urbano de que o ritmo desacelerado do campo imuniza seus habitantes contra as dores da existência. É como se a simplicidade da rotina os protegesse das fraturas da psique, das feridas de rejeição ou injustiça, e das crenças rígidas que aprisionam o comportamento. No entanto, basta ouvir e olhar além dos cartões-postais para perceber que o interior não é um território isento de sofrimento. Arrisco afirmar que, ali, a dor apenas caminha sem pressa.
As mesmas angústias que ecoam no caos da metrópole, entre o barulho no metrô e o estresse dos engarrafamentos, também pulsam sob o teto das casinhas de tijolos cercadas por arame farpado. A geografia pode mudar a velocidade da vida, mas nunca a profundidade das marcas que carregamos.
Nesse feriado de 9 de julho, fomos comemorar o aniversário da minha esposa nessa pequena cidade mineira. Hospedados em uma bela casa no alto da montanha, dividimos o tempo entre o descanso e uma visita à Monte Verde (clique a conheça mais sobre a cidade) no sábado.

Eu sempre gostei de visitar cidades pequenas. Elas nos esfregam na cara estilos de vida completamente diferentes dos nossos. Para mim, que saí da capital do Rio de Janeiro para Limeira (clique a conheça mais sobre a cidade), no interior de São Paulo, a transição já foi um choque de ritmo, embora Limeira tenha uma excelente estrutura de cidade grande.
No sábado à noite, ao passarmos pela praça principal de Córrego do Bom Jesus, em frente à Câmara Municipal, percebi que a cidade parecia ter adormecido por volta das oito da noite. Ruas vazias, um silêncio quase sagrado e pouquíssimas opções para comer. O charme dali está justamente no contorno das belíssimas montanhas cobertas de verde. E é sobre essa beleza que proponho um comparativo.
Será que nas cidades pequenas as pessoas estão livres de feridas emocionais?
De traumas?
De crenças paralisantes ou famílias disfuncionais?
“Ora! Que pergunta boba. É claro que não!“
É verdade. Então, por que nós, que saímos das grandes cidades, insistimos em acreditar que o isolamento é a cura mágica para uma vida corrida, cheia de incertezas, injustiças, cobranças e dores?
Como não fazemos uma pesquisa de campo com os moradores locais para saber se eles realmente vivem uma vida plena, nós simplesmente deduzimos que a calmaria externa é sinônimo de paz interna. Pura ilusão. A ferida emocional não tratada nos acompanha até as montanhas mais belas, aos imponentes castelos, aos hotéis mais luxuosos e, com a mesma força, às casas mais simples de um vilarejo do interior.
Mesmo compreendendo isso através da teoria e da minha prática na Psicanálise, estar ali me fez refletir profundamente sobre o que decidimos carregar na nossa bagagem interna. Sim, no interior também existem famílias disfuncionais, depressão, dependências, crises conjugais, rejeição e vazio existencial.

O curioso é que, quando visitamos esses lugares, nossa mente faz um filtro seletivo. Admiramos a beleza natural, a praça florida e o sorriso acolhedor do povo. Logo em seguida, romantizamos o estilo de vida de forma quase anestésica. Olhamos para os idosos sentados nas cadeiras de balanço na calçada como se o tempo estivesse congelado, mas desviamos o olhar dos trabalhadores locais: do supermercado, da farmácia, dos pequenos comércios. Parece que não queremos enxergar o cotidiano comum deles, porque essa realidade nos puxaria de volta para os nossos próprios problemas cotidianos.
Na “viagem”, o supermercado vira passeio, a praça vira cenário instagramável, a rua de paralelepípedo vira sinônimo de elegância e a casinha simples vira o puro charme.
“Olha que casinha linda!“, dizemos. Mas esse mesmo estilo de casa, na nossa própria cidade, seria apenas mais uma construção cinza pela qual passamos todos os dias sem notar nenhuma beleza.
Qual é a diferença real entre a beleza da cidade pequena e a sua vida? Note que eu não perguntei a diferença entre a cidade pequena e a sua cidade, mas sim entre ela e a sua vida.
Na tarde de sexta-feira, eu e minha esposa estávamos sentados em belas cadeiras de madeira azuis, em um deck de madeira elevado, contemplando um imenso paredão verde à nossa frente. Eram incontáveis tons de verde, árvores de todos os tamanhos e pássaros voando livremente. Em dado momento, três tucanos, na minha opinião, uma das aves mais lindas da criação, pousaram no topo de uma árvore há alguns metros de nós. Foi quando ela fez um comentário cirúrgico:
“Amor, esse é o ápice da vida.“
Por alguns segundos, analisei suas palavras.
Depois, concordei e me permiti viver aquele ápice, mesmo que por alguns minutos.
O ápice da vida: equilíbrio duradouro ou analgésico temporário?
Mais tarde, me peguei investigando essa definição. Se percorrermos a história do pensamento humano, o que realmente define o “ápice da vida”? Fiz algumas pesquisas rápidas no Google:
- Para Carl Jung, o ápice é o processo de individuação, a busca pelo autoconhecimento profundo que nos permite integrar nossa totalidade.
- Para Platão, é a contemplação da verdade e do bem, elevando a alma para além das ilusões materiais.
- Para Dostoiévski, não é a ausência de problemas, mas a plena consciência da existência e a capacidade ativa de amar e perdoar.
- Para Nietzsche, é a capacidade de afirmar a existência em sua totalidade, com todas as suas dores e delícias.
- Para Viktor Frankl, o ápice reside na autotranscendência, na capacidade de encontrar um sentido que aponte para além de nós mesmos.
Percebe como palavras como autoconhecimento, consciência e amor se repetem em todas essas mentes brilhantes, mesmo que não se apresentem explicitamente?
Quando minha esposa contemplou aquele paredão verde, a paz que sentimos não vinha apenas da natureza externa, mas da nossa capacidade de equalizar essa paz dentro de nós. Carl Jung dizia que aquilo que nos irrita no outro nos ajuda a nos conhecer. Mas o oposto também é verdadeiro: a beleza e o equilíbrio que admiramos “fora” costumam ser a projeção do espaço de cura que já conquistamos “dentro”.
Por outro lado, quando uma pessoa contempla um pôr do sol, um belo jardim ou um céu estrelado, mas continua corroída por conflitos internos, sem conseguir ressignificar suas feridas, a beleza externa serve apenas como um analgésico temporário. Alivia o sintoma por alguns instantes, mas não cura a fratura que está por baixo.
Equilíbrio versus analgésico temporário.
Quem tem ganhado o jogo na sua vida?
O equilíbrio duradouro ou a “dipirona” emocional das distrações?

Recentemente, em um dos meus atendimentos, perguntei: “Se o cuidar dos outros deixasse de ser uma obrigação ou um chamado na sua vida, quem você seria?”. A resposta dela foi de uma poesia clínica comovente: “Eu iria para uma fazenda ver as crianças brincando, cuidaria do meu marido, dos bichos, da casa…“. Em outras palavras, ela escolheu ser livre para voar, exatamente como os tucanos que vi em Minas. Trata-se do voo imponente de alguém que passou a infância trancada em responsabilidades de adulto, após ser abandonada pelo pai biológico e sofrer agressões físicas e verbais do padrasto. Ao terminar de falar, ela deu um suspiro profundo e disse: “Nossa… parece que passou um rio de águas vivas dentro de mim agora“. Ela se emocionou. E sorriu.
Contemplando aquele paredão verde com a minha esposa, eu também me emocionei. Eu sorri, agradeci, suspirei e vivi. Naquele silêncio, eu vi Deus.
Às vezes me pergunto o que passa na mente de quem vive isolado naquelas montanhas. Eu, um sanguíneo nato, conseguiria viver longe de tudo? Acho que passaria o dia lendo e escrevendo. Sentiria falta de gente? Certamente. Mas isso nós resolveríamos convidando os amigos para um bom churrasco ou um risoto de gorgonzola com medalhões de filé mignon. Quem resistiria?
O que essa viagem me ensinou é que, seja na capital, na minha cidade de mais de 300 mil habitantes ou no vilarejo de 4 mil, eu preciso estar em equilíbrio com as minhas próprias feridas para não exigir que os lugares ou as pessoas preencham vazios que eles nunca conseguirão, de fato, preencher.
O ápice da vida não está no reconhecimento do mercado de trabalho (que muitas vezes é pura ilusão), nem no cartão de crédito de alta categoria, muito menos em um carro de luxo. Embora tudo isso seja bom receber ou ter.
O ápice da vida é ter a estrutura interna para contemplar o equilíbrio. E a minha esposa (e psicóloga), Márcia de Medeiros (clique e veja seu perfil), merece todo o crédito por essa grande verdade.
Você pode reescrever sua história.
Se algo neste texto tocou você, talvez seja o momento de parar de apenas ler sobre mudança e começar a vivê-la. A terapia é o espaço onde você pode olhar pra sua história com honestidade, sem julgamento, e começar a escrever novos capítulos.
Atendemos online, de qualquer lugar do Brasil.


