Entre Histórias

Visões da Noite – Ambrose Bierce

Visões da Noite – Histórias de terror sarcástico é uma coletânea de 14 contos escritos por Ambrose Bierce, publicada em 1999 pela editora Record.

Bierce nasceu em 24 de junho de 1842, em Ohio, e teve sua morte declarada em 1914, aos 71 anos, após desaparecer no México. Além de escritor, foi herói de guerra e jornalista, tendo colecionado ao longo da vida diversos inimigos (Henry James e Jack London figuram nesta lista) graças à suas críticas extremamente ferozes e sarcásticas. Dedicou-se tarde à ficção, já com mais de 40 anos, escrevendo principalmente contos (de horror, de humor e de guerra), poemas e fábulas.

Sua obra mais famosa, O Dicionário do Diabo, foi publicada pela primeira vez em 1906 sob o título The Cynic’s Word Book, sendo um compilado de verbetes com definições satíricas e ácidas anteriormente veiculados em jornais humorísticos e políticos.

É considerado hoje um pioneiro do realismo fantástico, sendo colocado no mesmo patamar de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft por muitos críticos. Suas histórias com temática de guerra também tiveram seu peso, influenciando consagrados autores como Ernest Hemingway, William March
Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Stephen Crane.

E é justamente na Guerra de Secessão que Bierce ambienta Um incidente na ponte de Owl Creek, que abre a coletânea. Nele, um homem está de pé sobre uma ponte férrea no norte do Alabama. O que sustenta a ele e a seus executores é uma tábua solta apoiada aos dormentes do trilho. Está prestes a ser enforcado. Em seus últimos minutos de vida, começa a pensar em sua esposa e seus filhos e uma ideia lhe ocorre: se conseguisse desamarrar as mãos poderia afrouxar o laço em torno do pescoço e pular no rio abaixo de seus pés. O passo ao lado do soldado, no entanto, interrompe seus pensamentos, fazendo-o despencar da ponte para a morte. Ou será que não?

Adaptado para o cinema em 1962 por Robert Enrico, ganhou o Festival de Cannes (1962), o BAFTA (1963) e o Oscar (1964) por melhor curta-metragem. Em 28 de fevereiro de 1964, foi exibido como o 22º episódio da 5ª temporada de Twilight Zone (Além da Imaginação).

A dualidade entre o sonho e a possibilidade de uma experiência extra-corpórea é abordada em Naufrágio Virtual, que traz a história de um comerciante que decide prolongar sua viagem de negócios e embarca no veleiro Morrow com destino à Nova Iorque. Mas um naufrágio causado por um redemoinho o levará a outra realidade.

Em Luar sobre a estrada acompanhamos a história da família Hetman contada sob três pontos de vista: o do filho, relembrando a juventude; a do pai, prestes à cometer suicídio e a da mãe, brutalmente assassinada já há alguns anos.

Diferentes pontos de vista também são utilizados para contar a história de um escritor que defende que as narrativas de fantasmas demandam um ambiente adequado para serem apreciadas, em O ambiente adequado. Segundo Colston, é dever do leitor para com os escritores do sobrenatural, lerem suas histórias em locais que propiciem a sensação de medo: à noite, na mais completa solidão e à luz de uma vela. Mas não se engane em achar que este conto não traz nada de assustador, tendo como pano de fundo este questionamento, o texto desenrola-se de maneira surpreendente (e medonha).

A estranha ligação entre gêmeos é abordada em Um dos gêmeos, contando a história de Henry e John que, idênticos, passavam-se um pelo outro diversas vezes. Mas mais do que isso, sentiam as mesmas emoções e complementavam os pensamentos do outro, tomando atitudes por impulso, sem saberem porque, como se estivessem em corpos trocados.

A hipnose, por sua vez, é retratada em No limiar do irreal, onde um encontro inesperado com um velho conhecido fará com que o narrador, sem nome na história, viva excêntricas situações enquanto aguarda pela chegada de sua noiva em uma pensão.

Em Os olhos da pantera, a zoantropia é abordada por meio da história de uma cidade na qual as casas estão sendo vítimas do ataque de uma pantera.

O segredo da Ravina Macarger conta a história de uma casa mal-assombrada, palco de uma tragédia conjugal, que revela sua história para os que se aventuram a passar a noite nela.

A morte em vida, causada pela perda da mulher amada, é retratada em O homem saindo do nariz.

Já em A morte de Halpin Frayser, um jovem é atormentado por um sonho terrível ao passar a noite ao pé de uma árvore em uma floresta.

Em Aparições há a reunião de 6 contos cujo assunto central é, como o próprio nome sugere, a manifestação fantasmagórica de algum dos personagens do conto. A curadora da coletânea explica, no texto de apoio que acompanha esta edição, que a decisão de reunir estas narrativas em um mesmo capítulo deu-se pelo fato de serem “histórias parecidas sobre um mesmo tema” e que essa era prática comum da escrita de Bierce que, aficionado por determinados assuntos, beirava a obsessão. Obsessão essa que transmitia à seus escritos.

Assim como em Aparições, Casas espectrais reúne 7 contos cujo tema central são as casas mal-assombradas. Nelas ocorrem mortes misteriosas, aparições ou desaparecimentos.

E, por fim, em Cruzando o umbral, temos 5 contos à respeito do desaparecimento e da existência do espaço não-euclidiano, uma espécie de realidade paralela, uma fenda no tempo-espaço por onde os humanos poderiam adentrar e não mais serem vistos pelos que na nosso plano ficaram.

Em Visões da Noite, que fecha a coletânea, Bierce nos conta três de seus pesadelos, além de fazer uma breve explanação sobre o mundo dos sonhos e porque este o fascinava. O interessante aqui é que conseguimos identificar algumas “inspirações” que foram retiradas de seus pesadelos e utilizadas na construção de seus contos.

Ambrose Bierce era um cético que escrevia histórias de horror. Durante a vida, caminhou ele próprio de mãos dadas com o macabro, seja pela excentricidade de sua personalidade, pelo apreço à solidão, pela vida marcada por tragédias (perdeu três irmãos ainda na infância e dois filhos) ou ainda pelas circunstâncias de sua morte.

Para a construção da atmosfera de seus textos, opta por ambientá-los em lugares que incitam o medo por si só, como florestas, estradas desertas e casas ou fazendas afastadas. As histórias se passam, na maioria das vezes, na madrugada ou pouco antes do amanhecer.

A construção da narrativa também é um ponto interessante dos contos do autor. Utilizando-se da forma não-linear e, muitas vezes, contada através de diferentes pontos de vista, ele deixa à cargo do leitor se a presença do sobrenatural é verdadeira ou apenas uma sensação ou sonho do narrador. Apesar de em alguns textos pender à ironia, como se tirando sarro do leitor por acreditar no além e suas entidades.

No tocante ao enredo, surpreende, muitas vezes encaminhando as histórias para desfechos inesperados. Escritor realista, colocava como pano de fundo de suas narrativas críticas ferozes ao comportamento da época, ao senso comum, à falsidade e ao egoísmo humano.

Com relação à edição, um detalhe que me incomodou um pouco foi agrupamento feito pela curadora de contos do mesmo tema em um mesmo capítulo. Isso porque essa informação tira a surpresa do enredo. A partir da leitura do primeiro conto do capítulo já temos uma ideia de como será a narrativa dos próximos, prejudicando a apreciação do texto.

No fim, esta é uma coletânea irregular, com textos muito bons e outros medianos. Pode tornar-se cansativa à leitores esporádicos do horror, dada à quantidade de histórias com plots similares, mas irá agradar ao leitor apaixonado pelo gênero. De edição esgotada (e com preços salgados na Estante Virtual) fica a torcida para que a editora Record relance a obra.


Título: Visões da Noite – Histórias de Terror Sarcástico
Autor(a): Ambrose Bierce
Editora: Record
Ano de publicação: 1999
Tradução: Heloisa Seixas
Páginas: 222
ISBN: 85-01-05524-7
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12 Comentaram

  1. Lu Barros

    02/08/2017 às 10:31

    A capa está bem interessante, foi muito bom conhecer sobre o autor Ambrose Bierce, acho que nunca é tarde para começar a se dedicar para algo que gostamos, sobre o livro mesmo não curtindo terror me interessei por causa da sua resenha, parabéns! Beijos.

  2. Michele Lopez

    20/07/2017 às 13:20

    Olá,
    Não sou muito de ler obras do gênero terror/horror. Fiquei bem intrigada por conhecer ainda mais sobre o trabalho do autor, que por sinal desconhecia. Afinal ele já foi comparado ao Poe.
    Fico curiosa também por causa dos cenários que ambientam suas obras que, como você mesma disse, por si só já dão medo.

    LEITURA DESCONTROLADA

  3. Erika Monteiro

    20/07/2017 às 11:36

    Oie, tudo bem? Que livro mais diferente. Apesar de conhecer Allan Poe nunca li nada de Ambrose Bierce. Conforme fui lendo sua resenha fiquei bem curiosa pelo jeito que o autor escreve. Gosto de suspense, mas não lembro de ter lido nenhum enredo de horror. Uma pena a maneira como foi montado o livro. Acredito que é meio chato quando vamos lendo e já sabemos pra onde a história caminha isso nos priva da surpresa. Mesmo assim achei interessante o nome dos contos. O que fiquei curiosa pra ler é do rapaz que ficou durante a noite na árvore. Beijos, Érika =^.^=

  4. Heloísa

    19/07/2017 às 22:41

    Poxa é um gênero que adoro e nunca ouvi falar de nenhuma obra. Parece ser bem interessante e valer muito a pena! Já me imagino lendo nessas noites frias com uma bela caneca de chá hahahaha

  5. Ana souza

    19/07/2017 às 19:41

    Adorei sua resenha ficou bem completa e dá mais curiosidade ao publico.
    eu assisti o video e fiquei encantada e curiosa.

  6. Renata Porto

    19/07/2017 às 04:23

    Adorei as dicas do site sobre literatura.Vou visitar muitas mais vezes!!Grande Beijo

  7. Ana Carolina Domingues

    18/07/2017 às 22:53

    Meu tipo de leitura preferido é o suspense, ganha do romance, mas gosto de um suspense policial nada de terror. Não conhecia esse livro e nem o autor e achei bem interessante os contos

  8. Evandro

    18/07/2017 às 19:10

    hummm uma resenha de peso que me deixou com muita vontade de ler. A história do autor é bem marcante e por si só já daria um enredo. Eu adoro contos de terror, uma pena realmente essa composição em relação ao agrupamento. Torcendo também pra que relancem, sabemos que livros esgotados costumam ser realmente bem caros.

  9. Sandra Helena

    18/07/2017 às 12:56

    Olá, Talita

    Torror não faz muito o meu gênero favorito mas conheço e sei que Ambrose Bierce foi um crítico satírico, escritor e jornalista estadunidense e “O Dicionário do Diabo” acredito ser a sua obra mais conhecida espero não estar errada, rs..belíssima resenha. Bjs.

  10. Elaine

    18/07/2017 às 01:06

    Amo livros e filmes de terror 🖤

  11. Graziele Moraes

    17/07/2017 às 21:53

    Amei a forma como você escreve em resenhas😍 vou ler esses livros que indicastes

  12. Priscila Viricio

    17/07/2017 às 19:34

    Bem bacana a sua resenha flor! Tudo bem explicadinho e de bom entendimento. Eu não costumo muito ler por falta de tempo mesmo ;( e se eu começar uma leitura ela tem que me prender de uma tal forma que não me faça mais parar de ler.
    Beijos!