Entre Histórias

Sejamos Todos Feministas • RESENHA

Sejamos Todos Feministas é uma versão da palestra homônima, apresentada por Chimamanda Ngozi Adichie, durante o TEDxEuston em 2012. Publicado em 2015 pela Companhia das Letras, o livro traz ainda uma pequena introdução, onde a autora explica que houveram acréscimos ao texto original e conta um pouco de sua experiência na noite de seu discurso. Traz também uma breve biografia da autora e 3 pequenas resenhas de seus romances publicados: Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo e Americanah.

Chimamanda nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. Mudou-se para os Estados Unidos ao completar 19 anos, onde formou-se em comunicação e ciência política e concluiu os mestrados de escrita criativa e estudos africanos.

Sua primeira publicação foi uma coletânea de poemas, Decisions, em 1997, seguida por uma peça, For Love of Biafra, em 1998. Em 2003, publicou seu primeiro romance, Hibisco Roxo, bem recebido pela crítica, indicado ao Orange Prize e vencedor do Commonwealth Writers’ Prize em 2005. Em 2008, recebeu o Orange Prize por Meio Sol Amarelo e em 2013, o National Book Critics Circle Award por Americanah, seu terceiro romance.

A contextualização da vida de Chimamanda é necessária para entender os pontos levantados por ela em Sejamos Todos Feministas. A vida na Nigéria e o posterior contato com a cultura norte-americana permeiam não só esta palestra, mas toda a sua obra e justificam sua convicção feminista.

É fazendo uso de suas memórias, desde a infância até os dias atuais, que ela vai guiar todo seu discurso. O pontapé inicial é a história da 1ª vez em que fora chamada de feminista. A constatação partiu de um amigo e, segundo ela mesmo pontua, não foi um elogio

“Mas eu estava no meio de uma argumentação quando Okoloma olhou para mim e disse: “Sabe de uma coisa? Você é feminista!”. Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele – era como se dissesse: “Você apoia o terrorismo!”

A partir daí, a autora vai recobrando diversos outros momentos em que fica bastante claro o quanto ela fora subjugada apenas pelo fato de ser mulher, reforçando que é falsa a ideia de que a opressão feminina ficou no passado. Ainda no primário, no início do ano letivo, ficou encantada com a possibilidade de ser a monitora de classe, função essa que lhe permitiria anotar o nome dos baderneiros e circular pela classe empunhando uma vara, em tom disciplinar. O posto seria dado ao maior pontuador de uma prova à ser aplicada. A nota máxima ela conseguiu, mas lhe faltava algo imprescindível. A monitoria tão desejada foi atribuída ao colega de classe que, de tão bondoso e doce não tinha interesse algum em vigiar os alunos. Mas era menino, e isso bastava.

Anos à frente, fora importunada por um segurança de um dos melhores hotéis da Nigéria em que estava hospedada. Este a questionava sobre como poderia provar que era hóspede para poder passar recepção uma vez que, estando desacompanhada era bem provável que fosse uma prostituta. Uma mulher sozinha jamais teria como pagar por sua estadia.

A distorção do que o feminismo verdadeiramente tem como concepção também é abordada por Chimamanda ao pontuar que a palavra feminista vem frequentemente associada à uma imagem negativa. A mulher que odeia homens e odeia tudo o que é feminino: vestidos, maquiagem, sutiã, depilação. Um caso que ilustra isto muito bem deu-se na divulgação de Hibisco Roxo em que um jornalista a aconselha a não intitular-se feminista vez que esta palavra faz alusão à “mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido”. Ou quando uma de suas professoras diz que ser feminista não é compatível com a cultura africana e que essa ideia errada provavelmente havia sido absorvida dos romances ocidentais que lia.

Logo em seguida, Chimamanda discorre sobre o quanto as questões de gênero são fortemente enraizadas na nossa cultura e o prejuízo que isso traz não só para as mulheres mas também para os homens. Desde a nossa criação, os padrões de comportamento são nocivos à ambos. Para ilustrar ela cita um ponto comum aos casais adolescentes na Nigéria, que em muito se assemelha aos costumes brasileiros, de que o homem sempre deve pagar a conta, como prova de masculinidade. Enquanto que seria muito mais justo que dividissem ou, até mesmo, que quem tivesse mais pagasse, independente de seu gênero.

E essa prova de masculinidade vai perdurando por toda a vida do homem, impactando em suas relações pessoais e profissionais sendo que, para as mulheres, é designado o papel de coadjuvante, de não diminuir este poder masculino, de não emascular os homens, de depender deles e de sua aprovação para se firmarem tanto no ambiente familiar quanto no profissional. Aqui, a autora nos conta sobre duas de suas amigas: uma que utiliza uma aliança de casamento em congressos para que seja respeitada por seus colegas, e outra que vendeu sua casa para não impressionar de forma negativa um possível pretendente.

Por fim, a autora discute um pouco o porque de a questão de gênero ser tão difícil de ser discutida e modificada: as pessoas não querem pensar sobre ela. Mudar a forma como tudo está estruturado assusta à ambos, homens e mulheres. E, pra além disso, a maior parte dos homens se sente ameaçada pelo feminismo. Argumentam que também sofrem e sempre sofreram. Porém aqui é importante lembrar, como faz Chimamanda, que existem diversos sistemas de opressão e, deste pressuposto, um homem negro sempre terá o privilégio de ser homem mesmo que subjugado por homens brancos. O preconceito racial é apenas uma outra forma de discriminação.

A solução, oferecida por Chimamanda é que passemos a criar nossos filhos ressaltando seus talentos. Focando em seus interesses e não em seus gêneros. Pra além de mudar o pensamento da geração que já está formada, é importante que as crianças discutam e reflitam, desde pequenas, sobre seus papéis na sociedade.

Sejamos Todos Feministas não é um estudo incrivelmente detalhado do feminismo e das questões de gênero. Na verdade, a própria Chimamanda admite que nas ocasiões em que tentou ler livros técnicos sobre o assunto na adolescência, encontrou dificuldade. E talvez tenha sido exatamente por conta dessa dificuldade que ela tenha optado por um discurso fluido e agradável, ao mesmo tempo que bem escrito e rico em informação.

É uma ótima porta de entrada para quem está começando a pesquisar e se interessar pelo assunto que, cada vez mais, se torna imprescindível para a sociedade e para nossa formação enquanto seres humanos. Até porque, em tempos de excesso, Chimamanda apresenta um feminismo justo, calcado no bom-senso, que não quer diminuir os homens e sim elevar as mulheres até uma posição de igualdade e iguais oportunidades. Que luta pelo que deveriam ser as bases do movimento: a igualdade social, política e econômica entre os sexos.

“A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: “Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar”. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar.”


Título original: We Should All Be Feminists
Autor(a): Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2015
Tradução: Christina Baum
Páginas: 63
ISBN: 978-85-359-2547-0
Adicione: Skoob Ι Goodreads
Leia um trecho


Abaixo a palestra na íntegra (legendada).

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