Entre Histórias

O Enigma do Trem Perdido e Projeto Além do Óbvio

Meu primeiro contato com Arthur Conan Doyle não deu-se com Sherlock Holmes, como era de se esperar. Seu primeiro texto que li foi um conto, O Cirurgião de Gaster Fell, publicado na coletânea A causa secreta e outros contos de horror (resenha). Achei curioso o fato de nunca ter ouvido falar à respeito desta narrativa e, muito menos, de Doyle enquanto contista.

E foi deste fato que surgiu a ideia de criar um projeto literário que intitulei  Além do Óbvio. A intenção, como o próprio nome sugere, é resenhar obras desconhecidas (ou pouco comentadas) de autores famosos.

E para dar início escolhi uma coletânea de contos do próprio Arthur Conan Doyle, O Enigma do Trem Perdido. O livro foi publicado em 1981 pela editora Francisco Alves, dentro da coleção Mestres do Horror e da Fantasia. Tendo sido iniciada justamente neste ano com a publicação de Eu Sou a Lenda (Richard Matheson) e tido seu encerramento em 1992 com Trocas Macabras (Stephen King), a coleção trazia tanto autores já renomados como também narrativas inéditas no Brasil. Fizeram parte dela, além dos autores já citados, H. P. Lovecraft, H. G. Wells, Ray Bradbury, Oscar Wilde, entre outros.

Ambientado no século XIX, quando as práticas da aviação estavam em seus estágios iniciais O Terror da Alturas, que abre a coletânea, explora o medo do desconhecido ao relatar as experiências de um aviador que acredita que acima da marca de nove mil metros de altitude existe uma espécie de selva dos ares. Lá criaturas horrendas e perigosas estariam tirando a vida de aviadores corajosos o suficiente para alcançar uma altura tão grande. A narrativa, contada a partir das anotações do aviador, carrega um tom de horror que se assemelha à obra de Poe, ao explorar um medo comum à população da época em que foi escrita: o que haveria além das nuvens?

“O nível de nove mil metros foi atingido inúmeras vezes sem outro desconforto além do frio e da asma. O que prova isso? Um visitante poderia descer neste planeta mil vezes e nunca ver um tigre. No entanto os tigres existem, e se calhasse descer numa selva ele podia ser devorado. Existem selvas no ar superior, e existem coisas piores do que tigres que as habitam.” (pág. 4)

Tendo as ciências ocultas e o misticismo como pano de fundo, O Funil de Couro, também ambientado no século XIX, discorre sobre um colecionador que tem em sua coleção um antigo funil de couro. Ao receber a visita de uma amigo em sua casa, este lhe propõe que passe a noite com o objeto em sua cabeceira. O que a experiência tinha como propósito era trazer-lhe aos sonhos a história do utensílio. Seria isto possível? Porque o visitante acordou toda a propriedade com um grito de horror?

“Livros, armas, jóias, estatuetas, tapeçarias, imagens – não há quase aqui um único objeto qu não tenha a sua história, e geralmente uma história que merece ser contada.” (pág. 16)

Vingança é o tema central de A Nova Catacumba. Na história, dois pesquisadores tem um aparente laço de amizade. Certa vez, um deles descobre uma catacumba até então desconhecida e que guarda verdadeiros tesouros da Roma Antiga. A convite do amigo, Kennedy decide vistá-la no meio da noite mas, o que deveria ser um momento de extrema excitação pelos objetos encontrados, revela-se uma decisão perigosa.

“É de uma data diferente da de qualquer outra catacumba conhecida, e foi reservada para a inumação dos cristãos mais ilustres, de modo que os despojos e relíquias são diferentes de tudo o que já foi visto antes.” (pág. 29)

Em O Caso de Lady Sannox, Douglas Stone, brilhante cirurgião, recebe poucos minutos antes de sair ao encontro de sua amada o pedido de um turco para que lhe salve a esposa que havia cortado-se com uma faca envenenada. Contrariado, porém precisando da enorme quantia que lhe é oferecida pelo marido, vai até o encontro da moça adoentada. Porém o que deveria ser um simples atendimento vai acabar pondo em risco a sanidade de Stone.

“Quando, imediatamente em seguida a esse boato, veio a notícia de que o célebre cirurgião, o homem de nervos de aço, fora encontrado de manhã pelo criado de quarto sentado à beira da cama a sorrir embevecidamente para o mundo, com as duas pernas enfiadas numa só perna da calça e seu cérebro privilegiado não valendo mais que uma tigela de mingau, o caso foi suficientemente extraordinário para provocar uma forte comoção entre pessoas que não esperavam que seus nervos esgotados fossem capazes de tal.” (pág. 38)

Em O Monstro da Gruta, acompanhamos o relato do Dr. James Hardcastle que tendo dirigido-se à Fazenda Allerton para cuidar de sua saúde, tomara conhecimento de que uma gruta local era constituída por um mineral raro que lhe rendia o nome de Gruta de Blue John. Encantado com a beleza e excentricidade da mesma, o Dr. passa a visitá-la com frequência até que decide penetrá-la, ignorando a recomendação dos locais que relatam que uma criatura monstruosa a habita.

“- Então, doutor – disse ele -, vejo que o senhor não tem medo.

– Medo! – repeti. – Medo de quê?

– Da coisa – disse ele, apontando com o polegar para a abertura negra. – Do monstro que mora na Gruta de Blue John.” (pág. 49)

Em O Gato do Brasil conhecemos a história de Marshall King. Estando este em condições financeiras precárias, atende prontamente o convite do primo Everald para que lhe visitasse. A intenção era que o abastado homem se compadecesse de sua situação e lhe ajudasse com as finanças. A estadia se mostra tranquila e o anfitrião passa a mostrar-lhe os exóticos animais que trouxe consigo de sua temporada no Brasil, dentre eles o temível e feroz Gato. O que Marshall não suspeitava é que ele ficaria novamente cara-a-cara com a fera em uma situação que lhe colocaria a vida em risco e que  lhe faria aprender, à duras penas, que as aparências enganam.

“Foi tão rápido, tão súbito, que eu não vi a coisa acontecer. Simplesmente ouvi um regolgo selvagem, e um átimo depois os olhos amarelos abrasados, a cabeçorra negra e achatada com sua língua vermelha e dentes faiscantes estavam ao alcance do meu braço.” (Pág. 75)

O Enigma do Trem Perdido, que dá título à coletânea, nos apresenta a história de um expresso especial que saíra de Londres rumo a Paris mas que desaparecera, de forma inexplicável entre as estações de Kenyon Junction e Barton Moss. Oito anos mais tarde, a confissão de um condenado à guilhotina traria uma nova luz ao caso.

“A confissão de Hebert de Lernac, atualmente preso e condenado à morte em Marselha, lançou luz sobre um dos mais inexplicáveis crimes do século – um episódio que não tem, creio eu, precedentes nos anais criminais de qualquer país do mundo.” (Pág. 79)

Sob que circunstâncias os serviços de um médico necessariamente robusto e de nervos fortes se fariam necessários? E porque este deveria ter vasto conhecimento acerca de besouros? Em O Caçador de Besouros, Dr. Hamilton é um jovem médico que, estando no fim de suas economias, aceita as condições excêntricas da vaga proposta por Lord Linchmere e segue com este para uma viagem à casa de um famoso estudioso de besouros.

“O homem teme o fracasso quando corre o risco de pagar por ele, mas no caso não havia pena que a Fortuna pudesse cobrar-me.” (Pág. 95)

Em O Homem dos Relógios, Doyle constrói uma narrativa de mistério onde um assassinato, em circunstâncias estranhas e improváveis, é cometido dentro de um trem em movimento. Não bastasse o corpo sem identificação encontrado, três passageiros desaparecem de forma incompreensível.

“Que um crime fora cometido era fora de questão. A bala, que parecia ter saído de uma pequena pistola ou revólver, fora disparada de certa distância, pois a roupa não fora chamuscada. Nenhuma arma foi encontrada no compartimento (o que ao final eliminou a hipótese de suicídio), e não havia sinal da mala de couro marrom que o condutor vira na mão do cavalheiro alto.” (Pág. 111)

Um segredo escondido à sete chaves é o tema central de A Caixa de Charão. Sir. John Bollamore vive com os três filhos pequenos e os criados em uma mansão. Taciturno e recluso após o falecimento da esposa, é de conhecimento de todos que ele esconde algo e que jamais separa-se de sua caixa de charão. Quando vozes femininas passam a ser ouvidas dentro da propriedade à noite, as suspeitas de dividem entre uma vida duplade Bollamore ou a existência de algo sobrenatural dentro daquelas paredes.

“Havia em seus modos uma ausência de surpresa que me sugeriu uma nova ideia.

– Você já ouviu isso antes – exclamei.

– Não pude evitar. Meu quarto fica na torre, em cima. Já aconteceu muitas vezes.

– Quem será ela?

– Não faço ideia. Prefiro não falar nisso.” (Pág. 127)

Em O Doutor Negro, Doyle constrói mais uma trama de mistério. O referido doutor é encontrado morto em seus aposentos. Sendo as circunstâncias estranhas e dada a falta de provas cabais, o ex-cunhado do distinto médico é injustamente acusado e levado à julgamento. Sua inocência, no entanto, apenas se provará com a chegada de uma figura inesperada ao tribunal.

“Junto à mesa, do lado oposto à janela, encontraram o Dr. Lana de costas e positivamente morto.” (Pág. 137)

Um museu é o cenário de A Relíquia Judaica. Após substituir o antigo curador, Mortimer tem que lidar com o fato de que uma das mais valiosas peças, A Relíquia Judaica, passa a sofrer repetidos atentados. Decidido à descobrir o que estava acontecendo e como alguém consegui entrar no museu sem chamar a atenção do competente segurança, ele monta guarda na companhia de seu amigo e acaba por descobrir um segredo que poderia destruir uma família.

“Dependerá dos senhores, cavalheiros, do seu senso de honra e compaixão, que as coisas que lhes contei passem ou não adiante. Meu bem-estar, o futuro de minha filha, as esperanças de regeneração de um homem, tudo depende da sua decisão.” (Pág. 163)

Em A Sala do Pavor, conto que fecha a coletânea, temos a história de um casal que vê-se diante de um conflito quando o marido descobre a traição da esposa. Com um tom sarcástico, e diria até bem-humorado, este conto curtíssimo surpreende o leitor com seu desfecho.

“- Campbell! – ofegou ele. – Então é o Campbell!

Ela recobrara o sangue-frio. Nada mais havia a esconder. Agora tinha o rosto duro e decidido. Os olhos eram mortíferos como punhais.

– Sim – disse -, é o Campbell.” (Pág. 167)

Ambientação

Doyle constrói suas cenas com requinte de detalhes. Ele inicia seus contos criando a atmosfera e desenhando com minucia o ambiente em que se passará a narrativa.

Temas

Intercalando narrativas de mistério à la Sherlock e enredos que exploram medos comuns à população da época; a temática da oletânea é bastante heterogênea. Medo das alturas, do misticismo, do espiritismo são alguns dos exemplos.

Desfecho

Talvez este tenha sido o único ponto que me incomodou durante a leitura. Apesar de plausíveis em diversos casos foram também bastante previsíveis, ficando claros bem antes do que supostamente era pretendido pelo autor.

E o veredito é…

Nota 5/10

É uma coletânea que traz textos excelentes, como é o caso de O Gato do Brasil, O Homem dos relógios e A Sala do pavor; e outros medianos. De qualquer forma, é uma boa oportunidade para conhecer Doyle além de Sherlock Holmes e uma opção de leitura descontraída e leve. Com a ressalva de que alguns contos podem se tornar enfadonhos devido ao mistério ser revelado bem antes do desfecho.


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