Entre Histórias

O Alienista – Machado de Assis

Pode um homem, aficionado por uma ideia, enlouquecer?

Simão Bacamarte escolheu sua esposa não por sua beleza ou simpatia. Homem da ciência, preocupava-se com o que era deveras relevante: D. Evarista reunia em si as boas condições fisiológicas e anatômicas para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes.

Mas o destino tem de suas peças e, com o passar dos anos, Bacamarte conformou-se que este não lhe reservara uma continuação de sua dinastia. Mergulhou-se então na ciência, estudando cada um de seus recantos. Afeiçoou-se mais pelo psíquico, o estudo da patologia cerebral. Não tardou muito para que a ideia de reunir todos os dementes da cidade em um só lugar, para assim facilitar seus estudos, lhe permeasse a mente. Itaguaí ganhou então sua primeira Casa de Orates (casa de loucos, sanatório), a Casa Verde, transformando Simão Bacamarte em um respeitável e admirável alienista. Principalmente para o Sr. Crispim Soares, o boticário, que tinha na amizade com este sua consagração pública. Era íntimo do grande homem e o venerava.

Tão logo a Casa Verde precisou ser expandida devido ao seu sucesso, D. Evarista passou a sentir-se solitária, como a viúva que outrora fora, o marido apenas tinha tempo para os estudos. Este, valendo-se do sucesso financeiro de seu empreendimento, providenciou como consolo à esposa uma viagem ao Rio de Janeiro, seu sonho de moça. E assim formou-se a comitiva composta por D. Evarista, sua tia, a mulher do boticário, um sobrinho deste, um padre, cinco ou seis pajens e quatro mucamas.

Partiram em maio. A despedida, penosa para Sr. Crispim, foi fácil para Bacamarte. Teria mais tempo de dedicar-se à ciência. Tempo este que rendeu a Simão a ideia de uma nova experiência científica: demarcar os limites da razão e da loucura. Se o espírito humano é uma vasta concha, seu objetivo era extrair a pérola, que é a razão. O resto seria insânia, dizia, somente insânia.

Quatro dias após sua brilhante ideia, no entanto, Bacamarte fora responsável por causar o terror em Itaguaí. Primeiro, recolheu à Casa Verde o Sr. Costa, um dos sujeitos mais estimados da cidade, sob o pretexto de a loucura tê-lo feito conceder toda sua fortuna em empréstimos jamais pagos. Sua prima, tentando interceder por este, foi explicar a Bacamarte que a culpa não era de Costa. Ele apenas carregava o peso de uma praga lançada a seu tio que versava sobre a fortuna deste não durar mais que sete anos e um dia. Tendo Costa recebido este dinheiro em herança, já tinha o destino traçado. A prima, coitada, fora encarcerada na galeria dos alucinados.

Teorias sobre uma possível vingança ou inimizade começaram a surgir entre a população pois somente isto explicaria o acolhimento de duas pessoas perfeitamente ajuizadas à Casa Verde. Ao passo que mais acolhimentos, claramente sem nenhuma razão plausível, continuaram a serem feitos, o terror instaurou-se em Itaguaí. Quem pôde, saiu da cidade. As esposas acendiam uma lamparina à Nossa Senhora cada vez que seus maridos saíam. Alguns deles, apenas punham os pés para fora de casa acompanhados de um ou dois capangas.

Passou-se a dizer que a Casa Verde era uma espécie de cárcere privado e, silenciosamente, uma rebelião fora sendo orquestrada. Em muito pelo barbeiro Porfírio, que tratava de bradá-la à população. Este, que passou a lucrar muito mais desde que a Casa entrou em funcionamento, graças à aplicação assídua de sanguessugas nos internos, afirmava que o interesse particular deveria ceder ao interesse público. Sugeriu então que fizessem uma petição ao governo a fim de que Bacamarte fosse capturado e deportado. Aos poucos, mais pessoas foram aderindo a esta ideia, compelidas pelo terror.

A rebelião dará certo? A Casa Verde será fechada? As pessoas permanecerão internadas? Haverá realmente alguma intenção vil por trás dos acolhimentos feitos pelo Dr. Bacamarte? Teria ele próprio perdido o juízo? Ou as pessoas que não deixavam-se acreditar que figuras tão queridas da cidade pudessem realmente ter enlouquecido?

Publicado entre outubro de 1881 e março de 1882, e tendo sido incluído no terceiro livro de contos do autor, Papéis Avulsos (1882), o texto traz características marcantes da narrativa machadiana: a conversa com o leitor e a ironia. No âmbito dos contos, é este livro que marca o início da segunda fase da obra de Machado, trazendo contos hoje considerados clássicos como Teoria do Medalhão e O Espelho.

O assunto central de O Alienista também é um marco. É aqui que Machado começa a trabalhar um de seus temas básicos: a loucura. Aficionado em delimitar exatamente onde termina a razão e inicia-se a insanidade, Bacamarte vale-se da certeza, retirada de seus livros, de que as duas não poderiam coexistir. Qualquer que fosse o ato ou pensamento de alguém que fugisse do mais completo equilíbrio das faculdades mentais caracterizaria a loucura. Ou seria o inverso: os perfeitamente ajuizados é que necessitavam de tratamento. A crítica aqui é à ciência. Machado ataca a forma cega com que ela era tratada por seus admiradores, como se fosse verdade absoluta validando, portanto, qualquer ato praticado em seu nome por mais questionável que o fosse.

Há também uma crítica aos poderes públicos, que governam para atender suas próprias demandas e não aos interesses da população. A Câmara de Itaguaí que, ao aprovar o projeto da Casa Verde aprovou também a implementação de um imposto para subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos enfermos, tinha muito interesse que o funcionamento desta não fosse interrompido, fazendo vista grossa aos acolhimentos que eram feitos, aparentemente, sem um motivo concreto. Tratando também de recusar a petição entregue pelos moradores de Itaguaí, alegando que “a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não poderia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua”. O que só enfureceu-os e deu ainda mais gás à rebelião.

Machado aponta também o quanto um discurso forte, evocando importantes períodos históricos, porém vazio de consistência, enche de orgulho seus oradores e encanta facilmente às pessoas, sendo capaz de convencê-las do que quer que defendam. No conto, um dos vereadores muda de lado e passa a apoiar os rebeldes ao presenciar seu líder, o barbeiro, comparar a Casa Verde à “Bastilha da razão humana”. Este fato denota também como é relativamente simples convencer à população a iniciar uma revolta e eleger alguém como o salvador da pátria, dando-lhe apoio irrestrito.

No momento em que olha para a população enfurecida, o barbeiro passa à pensar que esta seria sua chance de chegar ao poder, que antes lhe era negado por não ter uma posição social compatível a ele. Se demolisse a Casa Verde, poderia tomar também a Câmara. Seria o Senhor de Itaguaí. Aqui, Machado faz um crítica à corrupção que a ânsia pelo poder pode causar. O barbeiro que começara a revolta em prol do bem público a continuara para sua própria ascensão, levando à conclusão de que uma revolta apenas troca o poder de mãos, pouco alterando o cenário como um todo. A opressão, as injustiças, os desmandos, a corrupção permanecem os mesmos. E a mudança de poder é cíclica, sempre que nasce uma nova indignação popular, nasce uma nova promessa de governo capaz de arrumar tudo o que está fora de lugar.

Por fim, vale a pena deixar de lado a aversão que muitos carregam em relação à obra de Machado e ler este conto que, apesar da linguagem rebuscada, é de fácil entendimento e levanta importantes questionamentos sobre a vaidade humana, a ambição, a corrupção dos poderes e a falsidade dos costumes. Tudo isso apresentado com uma refinada ironia, própria de Machado.


Título: O Alienista
Autor(a): Machado de Assis
Editora: Àtica
Ano de publicação: 2004
Páginas: 80
ISBN: 85-08-04083-0
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