Entre Histórias

Não Conte a Ninguém – Harlan Coben

Não Conte a Ninguém foi publicado em 2001 e trazido ao Brasil em 2009 pela editora Arqueiro. Foi o primeiro romance independente do autor e também o primeiro a aparecer na lista de bestsellers da The New York Times Book Review. Sendo, até hoje, o seu maior sucesso.

Foi adaptado para o cinema em 2006 pelo diretor francês Guillaume Canet, sob o nome Ne le dis à personne, trazendo François Cluzet e Marie-Josée Croze nos papéis de David Beck e Elisabeth Beck. Ganhou o Lumiere por melhor fotografia e foi indicado à nove Cesars, ganhando quatro: melhor ator, melhor diretor, melhor música original e melhor montagem.

David Beck e Elisabeth Parker se conheceram ainda crianças, quando esta mudou-se para perto de sua casa. Estudavam juntos, tornaram-se amigos e se apaixonaram.

O primeiro beijo foi aos doze anos, às 18:15, ao lado de uma árvore no Lago Charmaine, casa de veraneio dos avós de Beck. Logo após o beijo, entalharam na árvore suas inicias e um coração. No ano seguinte, no mesmo dia, entalharam uma barra em comemoração ao aniversário, o que tornou-se um ritual anual.

Aos 25 anos, já casados à 7 meses, estavam de volta à casa do lago para entalharem a 13ª barra na árvore. Na mesma noite, decidem voltar ao lago para mergulhar. Depois de algum tempo, Beck decide tirar um cochilo em uma das balsas e Elisabeth volta ao píer.

Tudo estava tranquilo até que o barulho de uma porta de carro sendo aberta desperta Beck. Institivamente ele tenta localizar Elisabeth e quando não consegue passa a gritar seu nome. Ninguém responde. Apenas o grito de Elisabeth rompe o silêncio e Beck se joga no lago para tentar chegar até o píer (sua barca já havia se afastado uns 6 metros). Outro grito, Beck nada ainda mais rápido. O som de algo sendo arrastado pode ser ouvido. Ele chega até o píer e é surpreendido com um golpe, desferido com um taco de beisebol, no peito. Cai de joelhos. Outro golpe, agora na cabeça. Cai ao chão. O último golpe, no rosto, o faz cair de volta no lago. Desmaia.

Oito anos se passam e Beck tornou-se uma pessoa amargurada e solitária. A dor da perda e a culpa por não ter conseguido defender Elisabeth o consomem. O corpo de sua esposa fora encontrado 5 dias após o ataque, na beira de uma estrada, vítima do serial killer Elroy Kelerton (Killroy).

Beck, mesmo não se lembrando até hojede que forma, conseguira sair do lago, chegar até a casa e ligar para a ambulância. Foi assim que a polícia entrou em contato com o caso, que ganhou repercussão nacional assim que a inicial K foi encontrada gravada no rosto de Elisabeth.

Beck, hoje pediatra, trabalha na clínica de Washington Heights, atendendo a população carente. O ato, que poderia ser interpretado como caridade e benevolência, na verdade, vem da aversão de Beck em trabalhar atendendo mães fúteis e pais cheios de frescuras ou, como ele mesmo diz, pessoas como ele. Mora com seu avô desde a morte da avó, não por amor mas para evitar que a irmã, Linda, casada e com filho tivesse que recebê-lo em sua casa, uma vez que o Alzheimer o impede de viver por conta própria.

Tudo vai nessa rotina na vida de Beck até que, em uma manhã na clínica, um dia antes do 21º aniversário do beijo, recebe um email misterioso. O remetente é desconhecido e no assunto constam suas iniciais, as de Elisabeth e 21 barras. No corpo do email a mensagem: “Clique no link abaixo, a hora do beijo”. Tentou abrir o link, uma mensagem de erro apareceu na tela. Teria que esperar até às 18h15min do próximo dia.

Ao chegar em casa naquela noite, havia um recado deixado pela empregada, para que entrasse em contato com o xerife Lowell, responsável pelo caso. Dois corpos haviam sido encontrados enterrados perto do lago Charmaine. Dois homens. Junto deles, um taco de beisebol com uma mancha de sangue. O que Lowell queria de Beck era uma amostra de DNA. Aquele taco poderia ser a arma usada para atacá-lo na noite do crime. Seriam aqueles homens outras vítimas? Cúmplices?

Às 18h12min18s da tarde seguinte, o link estava funcionando. Mostrava uma câmera de rua, focada em uma esquina. Era uma cidade grande, com certeza. Pessoas saindo de seus trabalhos e indo para casa, carros passando. Até que, segundos após às 18h15min, alguém surge bem abaixo da câmera. Uma mulher. Era Elisabeth. Beck ficou imóvel. Apenas conseguiu ler seus lábios que diziam: “Sinto muito”. Teve tempo apenas de prestar atenção em alguns detalhes, como a roupa das pessoas e as inscrições nas sacolas que carregavam a fim de reconhecer o lugar, e a imagem sumiu. Tentou reabrir o link, sem sucesso. Algum tempo depois, um novo email.

“Amanhã, duas horas depois deste horário, em www.bigfoot.com.
Uma mensagem será deixada para você.
Seu nome de usuário: Bat Street
Senha: Teenage
Embaixo disso, no rodapé da tela, mais seis palavras:
Estão observando. Não conte a ninguém.”

Temos um corte na narrativa para acompanharmos a história de Vic Letty. Letty é técnico da maior rede de TV a cabo da costa leste, a Cable Eye. Sua função é fazer reparaos e instalações para a empresa. Há quatro meses, passara a aplicar um golpe: descobriu que toda residência com Tv a cabo tinha uma caixa de distribuição na linha telefônica que registrava seu histórico de pedidos e o enviava, através de códigos, para os computadores da empresa. Vic então passou a anotar estes códigos e verificar a que se referiam. Ao descobrir algo constrangedor nos pedidos de alguns clientes da Cable Eye, mandava uma carta à pessoas ameaçando relevar aos familiares, amigos e empregadores as informações que possuía. Pelo seu silêncio, exigia o pagamento de 500 dólares.

O dinheiro deveria ser entregue em uma caixa postal que Letty havia aberto com um documento falso e em nome de uma empresa fictícia, a UYS Enterprises. Vic considerava-se muito esperto e precavido aos pensar em todos os detalhes com antecedência, como fizera com os nomes falsos. Ele não precisava esconder seus rastros pois não os deixava. Este tipo de comportamento separava os bons dos ótimos, pensava.

Com o tempo, percebeu que para aumentar o sucesso do golpe precisava concentrar-se em enviar cartas a pessoas que realmente pudessem ter suas vidas destruídas por escândalos: professores, médicos, advogados, políticos. E foi aí que Letty pescou sua maior vítima, Randall Scope, jovem herdeiro de uma fortuna, com aspirações políticas. Essa era sua chance, o golpe final.

500 mil dólares foram deixados em sua caixa postal. Ele não podia acreditar que mudaria de vida. Levou a caminhonete de volta a empresa, para não levantar suspeitas, pegou seu carro e seguiu para casa. Faria as malas e mudaria para o Arizona.

Ao abrir a porta de seu apartamento, sentiu-se pisar em algo macio, como um plástico. Ao acender a luz pôde ver dois homens: um bloqueando a porta (Eric Wu) e outro apontando uma arma para ele (Larry Gandle). Entendeu o porque do plástico no chão.

Após duas horas de tortura, recebendo tiros em diversas partes do corpo para dar informações sobre o golpe, revelar onde estavam os dados e o dinheiro e garantir que não haviam cúmplices , Gandle finalmente deu-lhe um tiro na cabeça.

Como as histórias de Vic e Beck irão se cruzar? Elisabeth está realmente viva? Se não estiver, como seria possível aquele vídeo? Quem seria aquela mulher? Quem estaria enviando aqueles emails?

Para acrescentar ainda mais mistério à trama, Beck se verá perseguido por agentes do FBI, suspeito de dois assassinatos e uma agressão. Além disso, um poderoso bilionário, Griffin Scope, também está perseguindo Beck, juntamente com seus capangas.

Ao longo da história conheceremos ainda os pais de Elisabeth, a irmã de Beck, Linda, e sua esposa Shauna (melhor amiga de Beck), uma antiga amiga de Elisabeth, Rebecca, a advogada Hester Crimstein e um misterioso morador da floresta próxima ao lago Charmaine. Todos eles terão papéis fundamentais para o desenrolar da trama.

A narrativa de Coben é simples e fluida. A opção de contar a história sob dois pontos de vista, a de Beck é contada em 1ª pessoa e as demais em 3ª , é interessante e bem utilizada. Assim como as situações em que Beck dirige-se diretamente ao leitor, o que nos coloca ainda mais dentro da trama.

As decisões que cada uma personagens vai tomando são bastante condizentes com suas descrições e comportamentos passados, exceto Beck. E isso foi exatamente o que me incomodou no livro: o desfecho. Beck vai seguindo coerente até quase o finalzinho do livro e no último plot twist é revelado que ele tomara uma atitude completamente incompatível não só com a com sua personalidade mas com a realidade. Arrisco dizer que ninguém naquela situação conseguiria apenas seguir em frente sem saber o que realmente acontecera. Pra mim, a revelação está aqui só pra chocar o leitor e acabou ficando um pouco forçada.

O livro não tem nada de extraordinário, mas traz bons personagens e uma trama envolvente. É ótimo para curar uma ressaca literária ou para ser uma leitura de puro entretenimento, principalmente se você é fã de livros como os de Dan Brown. Brown, aliás, que foi colega de Coben na faculdade de Ciência Política.


Título original: Tell No One
Autor(a): Harlan Coben
Editora: Arqueiro
Ano de publicação: 2009
Tradução: Ivo Korytowski
Páginas: 256
ISBN: 978-85-99296-51-6
Adicione: Skoob Ι Goodreads
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