Entre Histórias

A Estranha Máquina Extraviada • RESENHA

A Estranha Máquina Extraviada é uma coletânea de 14 contos escritos por José J. Veiga e publicados pela primeira vez em 1967 sob o nome A Máquina Extraviada pela Editora Prelo.

Veiga nasceu em 1915, na Fazenda Morro Grande, em Goiás e faleceu em 1999. Seu livro de estréia, a coletânea de contos Os Cavalinhos de Platiplanto foi publicado em 1959, aos seus 45 anos. Ao longo da vida, recebeu importantes prêmios como o Jabuti em 1981 , 1983 e 1993, respectivamente pelas obras De Jogos e Festas, Aquele Mundo de Vasabarros e O Risonho Cavalo do Príncipe; e o Prêmio Machado de Assis em 1997.

Em A Estranha Máquina Extraviada os temas centrais dos contos são a brutalidade da vida, a entrega ao vazio do cotidiano e a ação do destino nas decisões das pessoas.

A Máquina Extraviada, que dá nome ao livro, é o carro chefe, contando a história de uma cidadezinha do interior que determinada tarde tem sua tranquilidade abalada pela chegada de caminhões que transportavam uma grande máquina. Esta, foi montada em frente à Prefeitura por homens mal-humorados e grosseiros que, à despeito da curiosidade e das indagações dos moradores nada disseram sobre sua procedência ou finalidade.

A máquina apenas fora deixada ali, montada porém sem funcionamento. As crianças foram as primeiras à explorá-la, utilizando como um enorme brinquedo. Com o tempo, o prefeito que jurava não saber a razão de esta máquina ter sido entregue, colocou um funcionário para tomar conta dela que, à esta altura, já havia substituído o coreto e o campo de futebol como ponto de encontro, festividade e até comícios da cidade.

De todos os munícipes, no entanto, o vigário foi o único que não se rendeu aos encantos da máquina. Fato é que ele já possuía seu objeto de adoração.

“A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza,  e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.”

No fim de tudo, o que mais preocupa os munícipes é que o verdadeiro dono descubra que fora ali que a sua máquina foi entregue e venha resgatá-la. Ou ainda pior, que alguém que se considere muito superior tente mexer em suas engrenagens e coloque-a para funcionar. Isto seria quebrar todo o encanto que ela representa. Ninguém naquela cidade precisa que ela funcione, basta que paire ali, misteriosa e imponente, alegrando e dando significado à vida daquelas pessoas, antes tão pacata e insignificante.

Vidas sem significado, inclusive, é o tema central do conto Os Noivos, que traz a história de uma professora e o dono de uma lojinha de artigos variados. Todas as tardes ao sair da escola a noiva, que não tem nome, vai até a lojinha de Vicente carregando os cadernos da classe e sua bolsa de costura. Passam a tarde em uma salinha que Vicente construiu ao lado do balcão, sempre de portas abertas e com uma mesinha de centro entre as poltronas para evitar falatórios. A noiva costura e o noivo se distrai com o que for possível: um ponto vago no chão, seus pés cruzados sobre os chinelos ou um cordão apanhado da loja. Mas sempre com um sorriso nos cantos da boca, que não se sabe se é proveniente de seus pensamentos ou para que a noiva não o ache aborrecido.

Quando o dia começa a se pôr, os dois se dirigem à casa da noiva para o jantar. Todos contam, à mesa, o que viram e fizeram durante o dia mas Vicente permanece inerte. Na verdade, ninguém se importa com sua presença. O jantar acaba, as pessoas se dispersam e os noivos permanecem calados, cada um imerso em suas atividades (a noiva corrige os cadernos e o noivo distrai-se novamente em seus pensamentos). O silêncio só é quebrado quando a noiva repreende Vicente ou quando chega a hora de ela deitar-se. E assim, o noivo segue de volta para sua casa.

“Levantam-se ao mesmo tempo. Ele arruma a cadeira direitinho no alinhamento com as outras, ela alisa o vestido atrás e acompanha o noivo até a porta. A essa hora as cadeiras já foram recolhidas e não há mais ninguém na calçada, por isso não convém que eles se demorem sozinhos, é preciso cuidado com as más línguas.
[…] Pode haver estrelas, vento, risos e ruídos na noite, mas tudo isso pertence a outro mundo. Cada um em sua cama, é possível até que os noivos sonhem, mas isso ainda não foi comprovado.”

O poder do destino, é discutido em Tarde de Sábado, Manhã de Domingo que conta a história de três amigos que no caminho de volta da pescaria decidem aceitar o convite de Josias para irem até um sítio abandonado que fica perto dali. Essa decisão que parecera simples e inofensiva, no entanto, acaba por mudar completamente a vida dos quatro envolvidos para sempre. E a pergunta que fica é: eles poderiam ter evitado tudo o que ocorreu não aceitando o convite ou aquilo já estava marcado para acontecer, de uma maneira ou de outra?

“Rosendo caiu no choro, Dorico caiu no choro. Eu chorei mais forte porque vi a cara de D. Ritinha adivinhando e não querendo acreditar. Como se fosse uma combinação nossa, baixamos a vara com o saco perto dela e saímos correndo, perseguidos pelo grito dela, até hoje.”

Também observamos a história de um jovem estudante que se envolve com uma mulher comprometida com um ex-soldado em A Pedrinha na Ponte, de um índio que decide deixar a tribo para morar entre os brancos e acaba conhecendo a maldade do ser humano em Domingo de Festa, de um pai que não sabendo lidar com o filho após a morte da esposa o leva para morar na casa dos padrinhos em A Viagem de Dez Léguas, de um menino que a partir da observação de um gafanhoto passa a pensar que o mundo que conhecemos pode ser como uma miniatura em comparação com mundos muito maiores em Diálogo da Relativa Grandeza, de um visitante que chega inesperadamente à um rancho causando medo mas que aos poucos vai se tornando parte daquela família, em Em Andam os Didangos?, e do dia-a-dia da vida nos sítios em Na Estrada do Amanhece.

O realismo fantástico sempre muito ligado às obras do autor, considerado um dos maiores autores em língua portuguesa do gênero, está presente nos contos Acidente em Sumaúma, em que um mascate se vê obrigado à passar a noite em uma fazenda depois que lhe furtam seu burro e amanhece em um quarto diferente do que fora dormir e em condições misteriosas, no O Largo do Mestrevinte em que um homem caminha pelas ruas labirínticas de uma cidade à procura de um largo, sem nunca achá-lo, em Os Cascamorros sobre a história de uma loja cujo letreiro traz a inscrição COMPRAM-SE TROCAM-SE PROBLEMAS e o curioso que decide entrar para perguntar que tipo de transação que lá ocorre, em O Galo Impertinente que conta sobre a construção de uma estrada que demora anos para ficar pronta e que de longe parece uma obra magnífica mas, na verdade, é morada de galos gigantes que atormentam os carros que por lá passam, e em O Cachorro Canibal, que conta a história do animal que chega cansado e ferido e é acolhido por uma família, estabelecendo seu lugar na casa, para logo ter que lidar com a chegada de um cachorrinho menor e as mudanças que este causa.

O ponto de encontro entre os contos, no entanto, é a ambientação, bastante ligada às raízes rurais do autor ao situar as histórias em fazendas, ranchos, sítios e cidadezinhas do interior; e o tom cruel com que as narrativas se encerram, seja por conta da morte, da solidão, da perda, do abandono, do medo do desconhecido, da brutalidade, do remorso. Nenhum desfecho é agradável, apesar de muito bem construído. E isso, segundo o próprio Veiga, se dá pela atmosfera que o Brasil pairava naquele momento (1967). O lirismo também fora aqui dispensado, à despeito de Os Cavalinhos de Platiplanto; a linguagem precisava ser dura, seca.

No fim, este é um livro que vai levantar diversos questionamentos sobre o lado amargo da vida, a crueldade do ser humano, o poder da fé, aproveitar a vida e não se deixar levar pelo cotidiano e pensar de forma crítica não aceitando tudo o que lhe é dito.

“[…]Como é que ele podia ralhar com o boi e castigá-lo com o ferrão, depois de ter mandado ele se atrasar? Só Deus pode fazer isso, deixar as pessoas se desviarem de um caminho e depois dar o castigo. Será que está certo isso, ou Deus é diferente do que dizem? Se tudo o que acontece, acontece por ordem dele, castigo é injustiça. Conversar sozinho é perigoso, atrapalha muito as idéias. O melhor é fazer como a maioria das pessoas, que não perde tempo com essas bobagens e por isso não vive com medo – de castigo, de inferno, de pecado. Mas se a pessoa não conversa sozinha, pensando, como é que vai descobrir as explicações? Estudando em livro, em escola? Não parece ser caso de estudo.[…]”


Título: A Estranha Máquina Extraviada
Autor(a): José J. Veiga
Editora: Bertrand Brasil
Ano de publicação: 2010
Páginas: 139
ISBN: 978-85-286-0312-5
Adicione: Skoob Ι Goodreads

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6 Comentaram

  1. Mariana M

    02/08/2017 às 21:45

    Não costumo ler muitos contos, mas essa coletânea me deixou curiosa, parece boa.

  2. Hilda Machado

    02/08/2017 às 18:23

    Confesso que não conhecia nem o autor nem a obra…Mas, fiquei bastante interessada depois de ler o seu post! Acho muito interessante leitura de contos e com toda certeza irei buscar mais sobre <3 acho muito legal livros com uma pegada clássica. Beijocas! ♥

  3. Viviane

    02/08/2017 às 13:37

    Parece ser um livro feito para refletir. Como são vários contos, acho que o processo de reflexão se torna mais interessante a cada conto lido. Acho bacana livros que nos passam aprendizados interessantes e nos deixam pensativas a respeito do tema abordado.

    Beijos e cara, tu escreve muito bem!

  4. Sophia Cuñado

    01/08/2017 às 13:53

    Eu nunca tinha ouvido falar nesses livros e parecem super interessantes e de fácil leitura, me pergunto porque não passam livros como esse nos colégios, talvez fizesse com que crianças e adolescentes tivessem mais gosto pela leitura.

  5. Isabelle Felicio

    01/08/2017 às 06:12

    Amo como esse tipo de livro faz a gente refletir, mas os evito por conta da linguagem. Acho que ainda to traumatizada pelos livros que precisei ler na escola. Mas fiquei bem curiosa com alguns contos, e com medo de outros.

  6. Lívia Santana

    31/07/2017 às 20:55

    Eu confesso que nunca tinha ouvido falar no autor, mas adoro livros de contos! E ele ter ganho o Jabuti já é uma boa forma de me convencer a conhecê-lo.