Entre Histórias

Contos Fantásticos • RESENHA

Henri René Albert Guy de Maupassant nasceu na França em 5 de agosto de 1850, cometeu uma tentativa de suicídio cortando sua garganta, em decorrência da paranoia causada pela sífilis, em 2 de janeiro de 1892 e faleceu em um manicômio em 6 de julho de 1893, por conta de complicações causadas pela doença.

Foi contemporâneo e amigo de grandes escritores realistas e naturalistas como Zola, Turgueniev e Flaubert, tendo conhecido este último ainda nos tempos de faculdade e chamado-o de “mestre” por toda a vida. Por sua vez,  foi inspiração para o irlandês James Joyce, famoso por Ulysses.

Deixou uma vasta obra, dentro de um curto período de 10 anos, constituída de romances, peças de teatro e contos. Entre os mais conhecidos e consagrados (e aos quais deve seu sucesso entre o público francês da época e sua fortuna) estão Bola de sebo, O colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett, O Horla e O Emparedado. Destacam-se também seu primeiro romance, Une Vi, que vendeu 25.000 cópias em menos de um ano e Bel-Ami, de 1895, adaptado para o cinema em 1947 (The Private Affairs of Bel Ami – Albert Lewin) e 2012 (Bel Ami, O Sedutor – Declan Donnellan, Nick Ormerod).

A coletânea Contos Fantásticos – O Horla e Outras Histórias, com seleção e tradução de José Thomaz Brum, foi publicada originalmente em maio de 1997 dentro da Coleção L&PM Pocket, trazendo um prefácio escrito por Brum, notas do tradutor e uma breve cronologia da vida do autor.

O livro abre com O Lobo, conto oriundo de antigas lendas da Bretanha. Ao fim do jantar de Saint-Hubert, na casa do barão dos Ravels, tem início as famosas conversas sobre caçadas. O marquês de Arville, único dos convivas que não havia participado do evento desta tarde, passa a contar a história de seu trisavô para justificar sua aversão à esta prática tão comum à época. François e o irmão mais novo, Jean, eram ávidos por caçadas. Dedicavam suas vidas à sair pelos bosques e conversar sobre as empreitadas. No inverno de 1764, um dos mais rigorosos, começou a correr pelas redondezas o boato de que um lobo de pelagem cinza e tamanho colossal já havia devorado duas crianças e o braço de uma mulher e estrangulado todos os cães de guarda da região. Não demorou muito para que os irmãos reunissem os fidalgos da região e partissem parar uma caçada ao temível lobo. E é a consequência desta aventura que assustou à todos descendentes de François até o marquês e os manteve longe das florestas por toda a vida.

Magnetismo nos traz uma discussão entre homens, após licores e charutos, acerca do magnetismo e sua veracidade. Discussão esta interrompida por uma conviva que, bastante cético, não acredita no fenômeno e, para provar seu ponto de vista, passa a contar duas histórias que poderiam confundir-se com magnetismo mas que nada mais são que coincidências.

Em Medo, um dos tripulantes de um navio em direção à Africa, passa a discordar de seu comandante ao afirmar que pessoas corajosas não sentem medo frente à situações de perigo como um ataque ou a morte inevitável. Este sentimento apenas se manifesta ao contato com o desconhecido, com o inexplicável. E é aterrador, paralisante.

Aparição nos conta a história de um marquês de 82 anos que, durante uma reunião íntima em sua mansão, passa à contar aos presentes um acontecimento sem explicação que lhe ocorrera há 56 anos. Estando a passear pelo cais, encontrou uma amigo da juventude. Este, que tinha uma figura envelhecida e sombria, confessou-lhe que passava por uma grande tristeza: a mulher com quem casara-se, e por quem nutria um imenso amor, morrera por problemas cardíacos um ano após o casamento. Desde o enterro, havia abandonado o castelo onde viviam e mudado-se para seu solar em Rouen. Pediu-lhe então um favor, que fosse até o antigo quarto do casal no castelo e trouxesse para ele alguns documentos. Ao entrar no cômodo o marquês percebe que as janelas estão emperradas e que nenhuma luminosidade entrará no local. Passa a procurar pelos documentos com a visão ajustada ao escuro quando é surpreendido por um leve roçar de tecido em seu corpo. Mas não se engane aqui, a aparição da moça, até bastante previsível, não é a grande surpresa do texto.

A perversidade e o grotesco estão presentes em A Mãe dos Monstros, onde uma bela moça que caminha pela praia desperta no narrador a lembrança de uma outra mulher a quem era atribuída a alcunha de “A Diaba”. Esta, era uma exemplar criada de uma fazenda que descobriu-se grávida sem um casamento. Para tentar esconder a vergonha da condição comprimia violentamente o ventre com uma espécie de espartilho que havia desenvolvido. Ao dar à luz, foi abandonada pelas lavradoras que a ajudaram no parto, em meio ao campo, devido ao horror que aquela criança totalmente desfigurada e disforme causou às presentes. O que poderia ser fruto de enorme tristeza para a mãe, no entanto, acaba por transformar-se em algo que mudará sua vida para melhor, ao menos à seus olhos.

Em Carta de um Louco lemos a correspondência enviada à um médico por um rapaz que lhe pede para avaliar se deveria recolher-se à um sanatório. Suas aflições tiveram começo quando passara a refletir sobre uma afirmação de Montesquieu: “Um órgão a mais ou a menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência.” Deste ponto de partida e imerso em divagações sobre nossos 5 sentidos, sua parcialidade e limitação, o rapaz passa a temer uma entidade que, supostamente, o visita todas as noites.

Um julgamento é o que ambienta Um Caso de Divórcio. O advogado da sra. Chassel passa a defender seu pedido com base em passagens do diário de seu marido. Passagens estas que têm início antes de os dois se conhecerem, descrevem sua instantânea paixão, o casamento, a repulsa  que este desenvolve pela esposa e seu novo objeto de adoração.

Retomando o personagem central de Carta de um Louco, O Horla é constituído em duas versões. A primeira, narrada em terceira pessoa, traz os acontecimentos pela ótica de um alienista, o doutor Marrande. Este, solicita a presença de três colegas e quatro sábios para ouvirem o relato de um paciente que afirma ser perseguido por uma entidade superior aos humanos. Uma próxima raça, que veio para nos dominar, como fizemos aos animais. Ao fim do relato, o próprio alienista declara aos presentes não poder mais afirmar se o paciente tratava-se de um louco ou se este outro “homem” realmente havia chegado para nos subjugar. Na segunda versão, acompanhamos em primeira pessoa, através de entradas de diário, as experiências deste rapaz, antes de ser atormentado por este ser, durante sua chegada e depois que dominou-o por completo, levando-o ao sanatório onde hoje se encontra.

Em A Morta, um amor interrompido pela morte repentina da amante leva o narrador a um estágio de quase loucura, fazendo-o vagar à noite pelo cemitério onde sua amada fora enterrada. Em meio ao que podem, ou não, ser alucinações, o homem acaba por descobrir verdades que, na maior parte das vezes, são encobertas pela exaltação aos que partiram.

E o desfecho da coletânea dá-se com O Homem de Marte onde um senhor que vive nas falésias de Etrat interrompe um importante dono de cassinos da região para contar-lhe sobre um visão peculiar que teve. Em meio à divagações e explanações a respeito do universo e dos astros, jura que não tem nada de louco ou de mentiroso e que o ser que viu cair no oceano só poderia vir de Marte.

Tendo vivido na época de difusão do pessimismo filosófico de Schopenhauer e em meio à crescente da psiquiatria, do espiritismo, do darwinismo e da hipnose, Maupassant escrevia sobre variados temas, tendo sua maestria não no que era abordado, mas em como o fazia. Construía atmosferas de forma precisa e permeava a história com reflexões acerca de temas existenciais que assombravam seus leitores da época e que, ainda hoje, permanecem gerando debates como a ciência sendo limitada à capacidade humana, a nossa insignificância face ao universo, a religião como uma forma de preencher as lacunas do desconhecido, o medo e sua origem. Avesso à fé desmedida mas também à incredulidade total, deixava a presença do sobrenatural em suas histórias a cargo do leitor.

Em suas versões de O Horla, considerado por muitos sua obra-prima, discute a solidão como uma forma de aproximar-se da loucura, os limites da sanidade e a possibilidade de existirem no universo seres mais evoluídos que os humanos, capazes de dominar-nos. Foi inspiração para importantes obras como A Coisa Maldita de Ambrose Bierce e O Chamado de Cthulhu, de H. P. Lovecraft. Uma curiosidade é que para ambientar a mansão do narrador, usou-se da decoração da casa de Gustave Flaubert.

Contos Fantásticos – O Horla e Outras Histórias é uma seleção primorosa que explicita a eficiência de Maupassant enquanto contista e nos mostra porque é considerado um dos precursores do gênero fantástico na literatura.


Título: Contos Fantásticos
Autor(a): Guy de Maupassant
Editora: L&PM
Ano de publicação: 2008
Tradução: José Thomaz Brum
Páginas: 136
ISBN: 978-85-254-0639-2
Adicione: Skoob Ι Goodreads
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