Entre Histórias

Beijo, • RESENHA

Conhecido e aclamado por seus romances infantis como Charlie e a Fábrica de Chocolate, As Bruxas e Matilda, Roald Dahl também se aventurava por outras temáticas. Publicada pela primeira vez em 1960, a coletânea Beijo, (Kiss Kiss no original) apresenta 11 contos voltados ao público adulto.

O livro abre com o texto A Dona da Pensão (também conhecido como A Senhoria). Vindo de Londres, Billy Weaver chega à Bath, onde nunca havia estado antes, para apresentar-se ao gerente local da companhia em que trabalhava. Pergunta ao porteiro da estação de trem onde poderia hospedar-se por um preço baixo, ao que este lhe recomenda o Bell e Dragon. No caminho para o hotel, no entanto, uma placa escrito HOSPEDARIA lhe chama a atenção. Aproximando-se da casa, encontra um ambiente agradável e aconchegante, com um cachorro dormindo à beira da lareira, um papagaio, um confortável sofá, poltronas e um piano. Com certeza era uma opção melhor que o Bell and Dragon, mas também devia ter um preço muito maior. Decidido à continuar seu caminho, é detido novamente pela placa que parecia olhar para ele e, sem muito pensar, toca a campainha. É recebido por uma agradável senhora e acaba por descobrir que a estadia nesta casa custar-lhe-ia menos da metade do que estava disposto à pagar. A dona certamente tinha alguns problemas mentais, dadas as coisas sem nexo que dizia, mas era tão simpática e inofensiva que Billy resolveu aproveitar sua sorte. Um fato porém lhe chama à atenção pouco tempo depois: ao assinar o livro de hóspedes percebe que apenas mais duas pessoas haviam estado na casa e já há bastante tempo. Relê os nomes, tendo certeza de tê-los escutado em outra ocasião. Mas como isso seria possível? Teriam eles aparecido no jornal? Um dos rapazes não era aquele que estava fazendo uma excursão a pé pelo West Country quando desapareceu?

Passamos então para William e Mary, que nos apresenta a história desta última que, tendo sido abusada psicologicamente pelo marido por toda a vida, consegue sua vingança contra William de uma forma bastante inusitada.

Vingança também é o assunto central de A Ascensão aos Céus. Neste texto, conhecemos uma dedicada esposa que sofre de uma curiosa fobia: tem medo de atrasar-se. O marido, ao que tudo indica, nada faz para acalmar a esposa, pelo contrário, faz questão de acompanhá-la a todos os lugares e sair de casa sempre alguns minutinhos depois do horário limite.

Em O Prazer do Pastor conhecemos Cyril Boggis, um negociante de móveis antigos. Boggis fazia-se passar por um pastor que, aos domingos, dedicava-se a percorrer as antigas fazendas e casinhas humildes do campo em busca de mobílias valiosas para que reportagens sobre elas pudessem ser escritas e o proprietário pudesse receber dicas de como vendê-las. Mas o que ele fazia, na verdade, era convencer os moradores de que os móveis não passavam de imitação e, graças à ignorância destes, comprava-os por valor ínfimo. Até que um dia Boggis depara-se com uma raridade e com proprietários não muito fáceis de lidar.

Já em A Sra. Bixby e o Casaco do Coronel a história gira em torno de um casaco de vison que é dado à Bixby por seu amante, o Coronel. Não podendo chegar com o presente em casa, uma vez que sua tia Maude (onde ela dizia passar as tardes de sexta e sábado uma vez ao mês) jamais teria dinheiro suficiente para comprá-lo, a sra. Bixby decide penhorá-lo para resgatá-lo na manhã de segunda-feira. O que ela não contava, porém, era que seu marido quisesse buscá-lo ele mesmo e que isso a faria descobrir algo que jamais suspeitara.

Em Geleia Real, Albert Taylor é um apicultor, fascinado por abelhas desde a infância, que está enfrentando problemas de saúde de sua filha de seis semanas. A menina alimenta-se muito pouco e perdeu, desde o nascimento, cerca de um quilo. Tudo muda, no entanto, quando Albert decide alimentá-la com geleia real.

Em Georgy Porgy conhecemos a história de um vigário que, apesar de admirar a beleza das mulheres, têm aversão que elas o toquem. Sua vida passa a se tornar um inferno quando as moças solteiras que frequentam a paróquia começam à assediá-lo de forma agressiva e constante.

No incrível Gênesis e Catástrofe, Dahl relata o parto de uma moça que já perdera três filhos nos últimos dois anos.

Em Edward, o Conquistador, acompanhamos a história de um gato que, de forma peculiar, aprecia música clássica.

Em Porco temos, mais uma vez, o realismo fantástico. Lexington tornara-se órfão ao treze dias de vida de uma forma terrivelmente trágica: ao quebrarem uma janela para conseguirem entrar em sua casa, os pais de Lexngton foram confundidos com assaltantes pelos policiais que faziam ronda e acabaram alvejados. De todos os parentes, a única pessoa que quisera assumir sua criação foi a tia de seu falecido pai, a sra. Glosspan. Era uma excêntrica figura: nunca casara-se, não tivera filhos, morava em uma pequena cabana no alto das montanhas e jamais comera animais, em toda a vida. Criou Lexington isolado da sociedade, educando-o em casa. Aos dezessete anos, porém, um acontecimento muda a vida do rapaz, fazendo com que ele entre em contato com o mundo que nunca conhecera.

Por fim, em O Campeão do Mundo, acompanhamos dois funcionários de um posto de gasolina que decidem arriscar-se em uma caçada ilegal de faisões na propriedade de Victor Hazel, um influente cervejeiro da cidade.

Temas

A maior parte dos contos é construída com base em narrativas extremamente factíveis sendo que apenas três deles se utilizam do realismo fantástico: William e Mary, Geleia Real e Porco.

O livro todo carrega um tom de fábula ao trazer sempre uma moral, uma lição. O uso de finais abruptos, no entanto, faz com que o julgamento entre certo e errado não seja imposto pelo autor. Dahl nos leva à refletir e tirar as nossas próprias conclusões sobre temas recorrentes do cotidiano como inocência, vingança, respeito, relações conjugais, machismo, honestidade, traição, fanatismo, loucura, traumas, reencarnação, a ironia do destino, o consumo de carne e a crueldade do ser humano.

E o veredito é…

Nota 10/10

O texto de Dahl é irônico e ágil, sem jamais perder a boa qualidade. Apesar de tratar de alguns temas pesados, como a vingança e a traição, os contos tem um alívio cômico. O leitor percebe-se constantemente rindo de situações em que não deveria e, por vezes, torcendo para os vilões das histórias, o que por si só é motivo de reflexão.

Tendo sido este meu primeiro contato com o autor, a impressão que fica é bastante positiva. Mesmo porque é muito comum que coletâneas tenham altos e baixos, trazendo textos ótimos, medianos e, por vezes, ruins. Em Beijo, isso não acontece: todos os contos são excelentes.


Título original: Kiss Kiss
Autor(a): Roald Dahl
Editora: Barracuda
Ano de publicação: 2007
Tradução: José Garcez Ghirardi
Páginas: 301
ISBN: 978-85-98490-20-5
Adicione: Skoob Ι Goodreads

Este post faz parte do Além do Óbvio, um projeto literário criado por mim cuja intenção, como o próprio nome sugere, é resenhar obras desconhecidas (ou pouco comentadas) de autores famosos.
Caso você participe do projeto, não se esqueça de utilizar a hashtag #projetoalemdoobvio para que eu consiga localizar suas postagens!

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